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As memórias e suas necessidades

Recordo-me de um filme que vi há algum tempo sobre um personagem que tinha desenvolvido um software que permitia aceder às suas memórias e revivê-las uma vez mais, como se estivesse realmente lá, mas observando-as. Da mesma forma como podia entrar na mente de outra pessoa e aceder às suas memórias para procurar indícios de algo por exemplo.

Houve um momento em que este personagem, a pedido de terceiros, entrou na mente de alguém que tinha sido indiciado de um crime para averiguar se o seu testemunho era verdadeiro. Devido a alguns imprevistos, ele não conseguia sair da mente desta pessoa. Preso ali, ele não conseguia interagir com as suas memórias ou os outros que as povoavam, sendo apenas um observador.

Até ao momento em que descobre  que, quando a pessoa em cuja mente se encontra, se encontra na memória ao mesmo tempo que ele, pode haver contacto. Quando aquela pessoa visitava  aquela memória com consciência, percebia aquilo que estava ali de diferente e podia modificar algo.

E este é o ponto que considero interessante para reflexão. Quando nós estamos em consciência numa memória, podemos fazer algo com ela, modificá-la. E quando refiro estar consciente numa memória, quero dizer, saber onde e quando se encontra no presente e que está a visitar uma memória, permitindo-se observar realmente.

Tantas vezes visitamos essas memórias, mas sem grande consciência de que o fazemos. Deixamo-nos arrebatar por elas e pelas emoções que lhes estão associadas, chegando a sentir como se uma tempestade passasse por nós.

Mas estando ali naquela memória com e em consciência, temos a possibilidade de interromper determinado padrão e fazer a mudança do registo.

Aquilo que aconteceu está no passado e isso não pode mudar. Mas a cada vez que acede aquela memória, ela volta a doer, pois volta a viver aquilo e é arrebatado pelas suas emoções. E isto influencia o seu presente, Influencia os seus pensamentos, sentimentos e emoções. O seu comportamento é influenciado por aquilo que estas emoções o fazem sentir.

Ao mudar aquele registo, a história daquele momento, pode resgatar aquele seu eu e, fazendo algo de diferente, pode mudar o seu presente.

É uma escolha sua, que pode ser tomada em consciência e com consciência, de acordo com o resultado que pretende para si na sua vida, no seu presente, para construir um melhor futuro. Como escolhe fazer? Porque daquela memória surge uma necessidade que transporta consigo no dia a dia, ao longo da sua vida.

No presente, quando uma pessoa ou uma situação despoleta em si essa necessidade, vai procurar satisfazê-la inconscientemente.

Como exemplo, imagine um pessoa que tenha passado por situações de violência no passado, que tenha sofrido a agressividade de outra pessoa. É provável que daí tenha surgido a necessidade de modificar o comportamento do outro, que considera injusto e inadequado. É provável que sinta a necessidade de resgatar a si mesmo, a vitima daquele momento.

E ao encontrar, no presente, situações de agressividade e violência, esta necessidade vai ser despoletada. A pessoa não consegue que aquela situação lhe seja indiferente porque sente a necessidade de lá ir e mudar o comportamento daquela pessoa e resgatar aquela vítima com a qual se identifica. E nem se apercebe que continua a procurar resgatar-se a si mesma.

olhar de uma criança por trás de uma rede

Enquanto não trabalhar aquela memória e aquilo que ela despoleta em si, esta necessidade continuará presente, mesmo que não perceba que é de si mesmo que está a tentar cuidar. É preciso fazer algo quanto a essas memórias.

Pode modificar a história na sua mente, mas isso não muda o que aconteceu.

É uma verdade!

No entanto, pode sanar aquela necessidade, aceitando o que aconteceu de forma a não sentir necessidade de visitar aquelas memórias tantas vezes ou de forma a que já não exerçam sobre si a mesma influência ou causem a mesma dor. Para que não haja a necessidade de a cada um daqueles momentos que encontra ao longo do caminho e que possam ser remotamente semelhantes àquela dor do passado, aquela dor não seja despoletada uma vez mais.

Podemos modificar a história para ter uma narrativa de vida diferente e senti-la de uma forma diferente, contudo pode sentir de alguma forma quase como se fosse uma fraude porque não foi aquilo que aconteceu. Assim, pode não surtir o efeito pretendido.

Então, para o tornar mais eficaz, mais do que mudar aquela narrativa, é necessário sanar as dificuldades, dores e necessidades que dali surgem para poder lidar com o presente de uma melhor forma e poder construir um futuro também melhor. Pois estará a preparar-se para responder de uma forma diferente.

Experimente revisitar estas memórias na sua mente, mas em e com consciência, estando verdadeiramente presente no momento em que as visita. Como alguém de fora, observando. E então entrando na situação e agindo, fazendo aquilo que precisa de ser feito para modificar o comportamento do outro, para resgatar aquele seu eu ou para sanar algum comportamento seu que considere tê-lo deixado de alguma forma em divida para com o outro.

Intervenha. Mude o cenário, a circunstância, o resultado da história. E sinta essa diferença em si.

Quando arrumar aquela memória, guardará junto esta nova narrativa.

E a próxima vez que a lembrar, algo vai estar um pouco diferente. Experimente!

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