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O desconforto no aqui e agora

Considere a urgência que sente em se libertar do desconforto, nas mais diversas situações. Porque da mesma forma que quando nos focamos e queixamos de uma dor de cabeça ela dói mais, quando lutamos contra algo que não gostamos ou queremos, como o desconforto, ele torna-se mais intenso.

A alternativa pode ser aceitar o desconforto com boa vontade. Difícil, sim. Mas a questão a ser colocada em primeiro lugar será: como tem resultado para si essa luta até hoje?

Se não tem resultado bem, talvez seja o momento de experimentar algo diferente como exercitar a aceitação.

Aceitar o desconforto não tem nada a ver com gostar do desconforto, resignar-se com o sentimento de mal-estar ou afundar-se em emoções negativas. Pelo contrário, aceitar o desconforto tem tudo a ver com o facto de ver a emoção negativa por aquilo que é e mudar a forma como olha para ela. Reagindo, enquanto aceita a emoção, muda muitas vezes o efeito que ela tem sobre si.

Esta abordagem é muitas vezes mencionada como uma forma de aprender a observar as suas emoções com a sua consciência no presente (mindfully).

Hoje em dia, fala-se muito no Mindfullness, um estado do SER em que está presente no momento atual – o aqui e agora – observando o que quer que possa estar a experienciar nesse instante, com uma atitude de curiosidade e sem julgamento ou sem tentar modificar a experiência.

Desta forma, as nossas emoções não são algo caótico para cujo vórtex somos puxados e que nos faz reagir por impulso.

Em vez disso, tornamo-nos o observador das nossas emoções, notando aquilo que nos está a acontecer como se de uma terceira pessoa se tratasse, observando e notando o seu próprio desconforto com um sentimento de distância. Como tal, não precisamos de reagir, parar ou nos ligar às nossas emoções. Podemos simplesmente permiti-las, observando e dando espaço à emoção até que ela passe.

Como aceitar o desconforto

Não existe uma forma certa de o fazer, mas sim algumas ideias que a podem ajudar nessa experiência. É um processo que avança por tentativa e erro.

1. Observe

Tal como se fosse uma terceira pessoa na acção, observando as suas emoções e o desconforto

Regardless of what the emotion is doing, you are not your emotions, you are the watcher of your emotions. (Tolle, 2010)

2. Descreva ou categorize

Ao ser o observador das suas emoções, pode descobrir que ajuda se categorizar ou descrever para si mesma a emoção/desconforto que está a experienciar. Algo como:

“…existe medo, posso senti-lo no bater acelerado do meu coração”
“…existe tristeza, posso senti-la como um peso sobre os meus ombros”
“…existe raiva, posso senti-la na pressão que os meus maxilares exercem”.

3. Com curiosidade e sem julgamento

A linguagem usada para descrever as emoções (no ponto anterior) não julga. Em vez disso, parece exibir, de alguma forma, curiosidade. A emoção que possa sentir não é boa nem má, nem certa ou errada, é o que é.

4. Usando a imaginação

O uso da imaginação pode ajudar a permitir-se esta perspectiva distanciada.

Algumas pessoas imaginam que a emoção é uma onda e, em vez de lutarem com ela, deixam-se levar com ela. Elevam-se na crista da onda e, depois, ficam para trás, deixando que a onda passe por si.

Outras pensam no desconforto como um comboio de alta velocidade. É impossível pará-lo e seria até algo perigoso de fazer. Em vez disso, apenas observam a passagem desse comboio a partir da segurança da estação.

Outras ainda imaginam as suas emoções como nuvens no céu ou folhas na corrente do rio.

Há quem se imagine num quarto vazio com duas portas, observando as emoções entrando por uma porta e saindo pela outra.

5. E voltando ao presente

Uma vez que tenha observado por completo a experiência da emoção negativa, sentindo-a chegar à sua conclusão natural, é o momento de voltar a sua atenção para o momento presente. Pode fazê-lo dando atenção a alguma experiência sensorial ou à sua respiração – algo que está sempre presente. O que quer que escolha para se ancorar no presente, repare nos mais pequenos detalhes e permita-se experienciá-lo na totalidade.

No entanto, não importa o quão especialista se torne em qualquer um dos passos anteriores, é natural que as emoções voltem a aparecer. Não significa que tenha falhado na tarefa com as suas emoções. A chave é estar consciente de que a emoção voltou, congratular-se por tê-la “apanhado” antes de ter sido puxada para o vórtex e repetir os passos anteriores.

Não importa quantas vezes tenha de o fazer porque esse é o objetivo: apanhar e observar as suas emoções. Não é propriamente ficar por completo no presente de forma a não sentir as emoções ou o desconforto. Pensar desta forma só traz frustração a cada vez que a emoção volta à superfície.

Este é o exercício que lhe proponho com esta reflexão. E quando falo em emoções, falo nos pensamentos que lhes estão associados e no desconforto que pode ser causado por qualquer pessoa ou situação.

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Gostou do artigo?

Porque nos é geralmente difícil aceitar o desconforto, seja este físico, mental, emocional ou social, disponibilizo também para download uma sessão em áudio sobre este tema.

Esta prática vai ajudá-lo a aceitar a presença daquilo que poderá causar desconforto no momento, transbordando do presente para o passado e o futuro.

Ficheiro em formato mp3 com duração aproximada de 39 minutos.

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