Quantas vezes já disseste a ti mesm@:
“Quando deixar de ter medo, avanço.”
“Quando me sentir mais confiante, decido.”
“Quando tiver a certeza de que vai correr bem, dou o primeiro passo.”
E quanto tempo ficaste à espera desse momento?
Talvez tenhas aprendido que primeiro precisas de vencer o medo e só depois podes seguir em frente. Como se a coragem fosse a ausência de medo. Como se sentir medo significasse que ainda não estás preparad@ ou que aquele não é o caminho certo.
Mas nem sempre deixamos de ter medo antes de avançar.
Muitas vezes, é porque avançamos que descobrimos que conseguimos caminhar com esta emoção.
O medo não é teu inimigo
O medo tem uma função importante. Chama a tua atenção para aquilo que pode constituir uma ameaça e prepara-te para responder à mesma. Pode ajudar-te a reconhecer um perigo, a proteger os teus limites ou a evitar uma situação para a qual não tens ainda os recursos necessários.
Por isso, avançar apesar do medo não significa ignorá-lo.
Não significa te expores a situações inseguras, permaneceres onde estás a ser magoad@ ou enfrentares tudo apenas para provares que és corajos@.
O medo pode estar a proteger-te de um perigo real. Mas também pode estar a proteger-te da memória de um perigo passado, da possibilidade de falhares, da opinião dos outros ou do desconforto de não saberes o que irá acontecer.
E todas estas experiências podem ser sentidas pelo corpo como se dissessem a mesma coisa:
“Não avances.”
Antes de obedeceres ou lutares contra o medo, talvez seja útil escutá-lo.
Do que está este medo a tentar proteger-me?
O perigo existe atualmente ou estou a antecipar aquilo que poderá acontecer?
Do que preciso para me sentir suficientemente segur@ para dar o passo?
Quando esperas pela certeza
Existem decisões que nunca chegam acompanhadas de uma certeza absoluta.
Podes recolher informação, refletir, preparar-te e pedir ajuda. Ainda assim, não consegues controlar tudo o que acontecerá a seguir.
Talvez esperes pela certeza porque acreditas que ela evitará o erro. Mas, enquanto esperas, continuas a fazer uma escolha: a escolha de não avançar.
Mas também essa escolha tem consequências.
Podes evitar a possibilidade de falhar, mas podes igualmente afastar-te da possibilidade de aprender, descobrir ou construir algo diferente. Podes proteger-te do desconforto imediato e, ao mesmo tempo, te manteres numa situação que já não queres.
Não se trata de agires sem pensar, mas de reconhecer que pensar mais nem sempre produz a segurança ou confiança que procuras.
Por vezes, apenas adia o confronto com a incerteza.
O que queres que escolha por ti?
Imagina que estás perante uma decisão importante.
De um lado, está o medo. Do outro, aquilo que valorizas, desejas ou precisas.
Talvez queiras mudar de trabalho, iniciar um projeto, terminar uma relação, pedir ajuda, dizer que não ou mostrar algo que criaste. O medo pode apresentar-te todas as razões pelas quais deves ficar exatamente onde estás.
Algumas dessas razões merecem ser consideradas. Outras serão apenas tentativas de garantir que nunca te sentes vulnerável.
Pergunta-te:
“Se eu não sentisse este medo, o que escolheria?”
A resposta não deve ser seguida automaticamente. Serve apenas para te mostrar o que existe para além do medo.
Depois, pergunta:
“O que posso fazer para respeitar o medo sem lhe entregar toda a decisão?”
Talvez não precises de escolher entre avançar cegamente ou ficar paralisad@.
Pode existir um passo intermédio.
Um passo que ainda conta como avanço
Quando olhas apenas para o destino, o caminho pode parecer demasiado longo até lá.
Se pensas em mudar de profissão, podes sentir que precisas de abandonar imediatamente o emprego. Se queres mostrar o teu trabalho, podes imaginar que tens de o apresentar já a toda a gente. Se precisas de estabelecer um limite, podes acreditar que tens de enfrentar de uma só vez todos os conflitos que evitaste.
Mas avançar não significa fazeres tudo de uma vez e agora.
Podes começar por recolher informação, escrever uma mensagem sem a enviar, pedir uma opinião, experimentar algo num contexto seguro ou conversar com alguém em quem confias.
Um passo pequeno não é menos real, por mais pequeno que seja.
Se te coloca em movimento na direção que escolheste, também ele faz parte do caminho e te leva em frente.
Pensa na situação que tens evitado e pergunta:
“Qual é o passo mais pequeno que consigo dar e que ainda representa um avanço?”
Não o passo que impressionaria os outros. Não aquele que achas que já devias ter dado. Apenas aquele que, nas tuas circunstâncias atuais, é possível e significativo.
Escolher sem controlar tudo
Talvez possas aprender a exercer um controlo descontraído sobre a tua vida.
Não um controlo rígido que procura garantir cada resultado, prever cada dificuldade e eliminar todo o risco. Mas o controlo que nasce de reconhecer aquilo que depende de ti e aquilo que terás de descobrir ao longo do caminho.
Podes escolher a direção sem conhecer cada curva.
Podes preparar-te sem precisares de antecipar todas as possibilidades.
Podes agir de acordo com aquilo que valorizas sem ter a garantia de que conseguirás o resultado que desejas.
Existe uma diferença entre seres responsável pelas tuas escolhas e seres responsável por controlar tudo o que acontece depois delas.
Quando confundes as duas coisas, qualquer decisão parece demasiado perigosa.
Quando as separas, talvez consigas respirar com mais leveza e te perguntares simplesmente:
“O que depende de mim agora?”
A coragem de avançar com medo
A coragem não está necessariamente num gesto grandioso. Pode estar numa conversa adiada, num pedido de ajuda, numa tentativa imperfeita ou num primeiro passo que quase ninguém vê ou valoriza.
Também não está em nunca voltares atrás. Por vezes, avançar significa reconhecer que o caminho escolhido não te serve, aprender com a experiência e mudar de direção.
O medo poderá continuar presente.
Talvez caminhe contigo durante algum tempo. Mas não precisa de conduzir todos os teus passos.
Podes escutá-lo, perceber o que te quer dizer, procurar os recursos de que precisas e decidir de forma consciente.
Não precisas de esperar até te sentires completamente preparad@.
Talvez precises apenas de estar suficientemente seguro e de encontrar uma razão que torne o passo importante para ti.
O que tens adiado enquanto esperas deixar de ter medo?
E qual seria o teu próximo passo se decidisses não deixar que fosse apenas o medo a escolher?
Nota editorial e fontes
Este texto é uma reflexão geral e não propõe enfrentar indiscriminadamente situações temidas.
- Browning, M., Van Kirk, N. e Björgvinsson, T. (2023). Exposure Therapy and Its Mechanisms. Current Topics in Behavioral Neurosciences, 64, 273-288. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/37532963/
- Chowkase, A. A. et al. (2024). Dual-process model of courage. Frontiers in Psychology, 15, 1376195. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38586299/


