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Desilusão

É inevitável vivermos na ilusão já que tudo o que vemos, vivemos e interpretamos passa pelos nossos filtros.

Nesta caixinha mágica que é o nosso cérebro temos um laboratório que nos permite antecipar, antever e planear o futuro. Mas como tudo o resto na vida, dependendo do seu uso, pode trazer benefício e prejuízo.

Pode trazer benefício precisamente porque nos permite planear os nossos passos e escolher os resultados prováveis de acordo com aquilo que já conhecemos. Mas traz muitas vezes prejuízo por não darmos espaço de manobra suficiente para as eventualidades que fazem parte da vida, assim como para uma realidade diferente da que imaginamos. Não é pelo facto de pensarmos que tem de ser assim ou que vai ser assim porque “sempre” foi, que a realidade acompanha.

Pode ser que sim, pode ser que não.

E muitas vezes montamos estes planos e esquemas da realidade sem os factos necessários porque assumimos o papel de adivinhos ou de deuses. Pensamos que será daquela forma só porque nós faríamos assim ou porque o outro fez assim em determinado momento.

Mas, como já comentei antes:

Somos péssimos a adivinhar a lotaria!

Porque nos parece que seremos melhores a adivinhar o comportamento, sentimentos ou pensamentos do outro?

Porque já o conheço ou porque é a resposta habitual, não serve.

Temos um laboratório, queremos que os resultados do seu uso sejam quase como os de uma ciência exacta, mas não os usamos como cientistas. Cientistas, que entre as diversas funções na sua prática, procuram controlar as variáveis existentes ou, quando não é possível, pelo menos conhecê-las para poderem explicar e compreender os resultados.

É isto que fazemos? Ou será que muitas vezes fazemos o tal planeamento sem perguntar ao outro o que ele pensa, sente ou quer, confiando que será assim? Mais: porque sabemos que é assim.

Mas muitas vezes não é e enganamo-nos. E podemos andar iludidos durante muito tempo. E quando percebemos que a realidade, o outro não acompanha, sentimo-nos desiludidos. Desiludidos com o outro. Desiludidos com a vida. Quando a responsabilidade pela ilusão criada é nossa.

O que é a desilusão senão o fim da ilusão? – Kahlil Gibran

Será que preferíamos viver iludidos? Porque temos sempre escolha. Podemos fazer como o cientista ou não, e na maior parte do tempo, aproveitar a corrente e saborear o imprevisto e inusitado. É uma escolha nossa. É responsabilidade nossa.

Será que é o outro que nos ilude? Ou somos nós que aceitamos fragmentos do comportamento do outro para o definir? Porque continuamos a iludir-nos. O outro é muito mais do que aquela amostra.

Nós somos muito mais do que determinada amostra. Porque todos os momentos e circunstâncias são diferentes. Porque são tanto causa, quanto resultado de pensamentos, sentimentos e escolhas. São tantas as variáveis envolvidas num determinado momento (e muitas desconhecidas) que não há como o replicar no laboratório.

Você é muito mais do que a ilusão criada por outra pessoa em determinado momento. É muito mais do que isso! E o outro também o é.

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