Nas últimas reflexões abordámos as fronteiras e a necessidade de as fazer respeitar, mas também a importância de respeitar e honrar as fronteiras dos outros. E quer num aspeto quer no outro, por vezes é difícil deixar ir os pensamentos sobre aquilo que gostaria que fosse diferente, deixar ir a sua avaliação sobre isso, e apenas agir. Ou não agir.
No entanto, o objetivo não será livrar-se dos pensamentos. Hoje vamos ver porquê.
Já falámos antes sobre como a sua resposta emocional depende daquilo que passa na sua mente, depende da avaliação que faz sobre a situação. E é precisamente por ter essa consciência que muitas vezes luta com os seus pensamentos para procurar sentir-se melhor. Fazemos isto porque nos parece que esta é A forma de exercer o controlo sobre a situação.
Mas e se não for a única?
Uma coisa será importante entender. É que seja de que forma for, é você que está no controlo. Talvez a escolha ou o processo possa não ser consciente, mas é aquilo em que investe na sua mente que faz com que se sinta de determinada forma.
Lembro-me de um exercício proposto por Vítor Rodrigues no seu livro Tranquila-Mente que lhe propõe o seguinte:
Pense na imagem de um jacaré.
Fácil, não foi?
Agora procure não pensar em jacarés, sobretudo grandes e perigosos.
Não está a dar? Chatice!
Já experimentou pensar que é uma pessoa muito burra se não consegue tirar um simples jacaré da cabeça? Ou que é horrível ficar a pensar num animal meio couraçado e cheio de dentes?
Já experimentou irritar-se ou deprimir-se com o raio do jacaré?
Negar a imagem em que não quer investir, não surte o efeito que pretende. O não é apenas a negação de uma ideia e para a negar, a ideia precisa de estar lá. E depois de ter criado a imagem não é com palavras que consegue anular o seu efeito ou mesmo tirá-la de lá. As palavras são a linguagem da sua mente racional e as imagens são a linguagem do seu subconsciente, elas são “lidas”de imediato. E se associar emoção às imagens, então aí fica ainda mais difícil de o fazer.
Falava de pensamentos e os pensamentos são palavras e imagens. Daí que é natural que sinta dificuldade em fazer desaparecer os pensamentos que geram mal estar se estiver a tentar livrar-se deles.
Mas e se o objetivo não for livrar-se dos pensamentos, sentimentos e situações de vida negativos, e sim mudar a forma como lhes responde?
A paz não significa estar num lugar onde não há caos ou problemas e dificuldades com que lidar. Paz significa estar no meio de todas essas coisas e permanecer física, mental e emocionalmente centrado.
Para isso, pode usar também os seus pensamentos, para permanecer centrado apesar do que puder lá estar.
Seguindo a ideia de Vitor Rodrigues, vamos voltar ao jacaré, com o mesmo tamanho e características, mas fique neutro em relação ao facto de ele lhe ter surgido na mente. Reconheça que o pensamento surgiu e observe a sua reação a ele, deixando-o simplesmente estar lá.
O seu objetivo é fazer com que ele não esteja lá, mas em vez de lutar com a imagem, cultive uma outra.
Por exemplo, coloque próximo do jacaré peixes coloridos e pode talvez notar na superfície da água o esvoaçar de araras por entre as árvores. Pode acrescentar macacos nos ramos e, mais para terra, tartarugas, zebras e elefantes, pode acrescentar ursos, avestruzes… O que quiser. Às tantas, o jacaré já deve ter desaparecido. Ou poderia seguir outro exemplo do autor e imaginar ao lado dele um hipopótamo e ampliá-lo até o deixar do tamanho de um porta-aviões…
É usar a sua imaginação para mudar a forma como se sente em resposta ao que vai pela sua mente. Se conseguir rir, por tornar a ideia ridícula, ou sorrir porque a tornou muito agradável…. Óptimo! Alcançou o objetivo com sucesso.
Torne o exercício agradável em vez de cansativo.
Qual é aquela pequena coisa que sempre o relaxa e deixa feliz?
Use-a desta forma, como estratégia.
É a sua mente. São os seus pensamentos. Pode escolher quais prefere usar. Não é porque está habituado a pensar de determinada forma, a pensar aqueles pensamentos que têm vivido na sua mente, que precisa de continuar a fazê-lo!
Se está muito habituado a tomar café depois do jantar e começa a perceber que não o deixa dormir tão cedo, ou talvez que a quantidade de café lhe está a agitar o estômago – nada contra o café! – decide deixar de o fazer, mesmo que seja um hábito. Não precisa de banir o café da sua despensa ou da sua vida, no entanto. É só decidir o momento ou a quantidade em que vai passar a tomá-lo!
E não são só as lutas que empreendemos nos nossos pensamentos que cansam a mente, mas muitas vezes também a falta de sono que daí resulta. Contudo, o sono é precioso ao nosso bem-estar. Por isso esse será o tema da próxima reflexão.