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O autocuidado

Muitas vezes percebo, quer no contexto clínico, quer nas relações pessoais, que é comum pensar-se que só procura cuidados na área da saúde mental quem tem problemas dessa ordem, quer seja porque atravessa um momento de crise ou porque recebeu um diagnóstico.

Mas será que é apenas nesses momentos que deve cuidar de si?

Vamos ver se assim é e como poderá fazê-lo.

Ouça a reflexão em video ou continue a ler mais abaixo.

Quando os sintomas das doenças se fazem sentir não é exatamente no início da doença, mas após o processo se desenrolar há já algum tempo. Em algumas situações, os sintomas demoram menos tempo para surgir, noutras podemos até nem dar por eles, por serem doenças mais silenciosas, mas o processo já está em movimento há mais tempo.

Quando falamos de um desconforto psíquico, como a ansiedade, os sintomas também só começam a partir de um determinado momento, mas o processo já começou bem antes.

Há pouco tempo referi como até os acontecimentos positivos na nossa vida podem, nas devidas condições, gerar sofrimento psíquico.

Então, cuidar do nosso bem estar é algo que precisamos de fazer ao longo da nossa vida e numa base diária. E torná-lo um hábito é a melhor forma de prevenir o mal estar psíquico (mental e emocional) resultante de um stress continuado no tempo, mas também tem o potencial de reduzir o impacto que situações pontuais podem ter sobre si.

Refiro a necessidade de fazermos uma manutenção da saúde e não da doença, como nos habituámos a fazer.

Para isso, e para não deixar que a tensão ou o mal-estar se vão acumulando, precisa de estar mais consciente das flutuações no seu bem-estar, não de uma forma obsessiva, mas apenas reconhecendo que elas estão lá como sinais de que é o momento de agir de forma a manter o bem-estar e não deixar a situação descambar.

Mas que cuidados?

A forma como irá agir ou os cuidados que poderá ter para isso, variam de uma pessoa para outra, uma vez que somos todos diferentes.

Nas redes sociais de consumo rápido, de hoje em dia, estamos expostos a sugestões de todo o tipo. E até com as sugestões de autocuidado precisamos de usar do bom senso para que estas não sejam apenas fonte de mais stress e frustração, distraindo daquilo que poderá ser de real valor.

Se por um lado encontra incentivo à crítica e à lamentação, cujo único resultado é revoltar as entranhas, por outro abundam as imagens com sugestões de autoindulgência e que alimentam desejos de satisfação imediata mas fugaz que apenas distraem das necessidades do (seu) SER.

Ruído apenas.

O autocuidado precisa de lá estar no dia a dia e traz resultados a médio e longo prazo.

É fácil confundir as necessidades reais, aquilo que o seu ser precisa/deseja, com as necessidades criadas por hábitos apreendidos ao longo do tempo.

Se pensarmos na prática de exercício regular ou de uma boa alimentação, estes são cuidados que pensamos serem essenciais a todo o ser.

A escolha de alimentos pouco saudáveis pode satisfazer uma necessidade no momento, mesmo que o bem estar seja fugaz, contudo, de forma continuada e persistente, pode resultar num mal estar futuro. E cuidar de si é cuidar agora E no futuro.

Seguindo este exemplo, vemos facilmente alguns cuidados como formas de castigo porque “desejamos” algo diferente daquilo no momento e pensamos apenas na satisfação imediata.

No entanto, se precisamos de cuidar do SER no presente e no futuro, também precisamos de o fazer de acordo com cada ser.

Em determinado momento e de determinada forma, fazer exercício ou um esforço por comer melhor podem ser uma maneira de gastar mais energia do que produzi-la, de acrescentar mais pressão do que propriamente aliviá-la. Então é importante avançar por etapas ajustadas a cada um e ao momento em que este se encontra.

São boas estratégias? São.
Mas não são a única forma de cuidar de si.

Movimento

O movimento do seu corpo é importante para o seu bem estar, mas não precisa de correr ou ir para o ginásio. Nem precisa de caminhar meia hora por dia. Pode começar por levantar-se mais vezes para ir beber água, dar uma volta na sala de trabalho, descer e subir as escadas em vez de apanhar o elevador ou fazer aquela limpeza que a casa está a precisar.

Alimentação

Ter uma boa alimentação é uma boa forma de cuidar de si, mas o que é uma boa alimentação?

Não se prenda tanto às regras e sugestões que chegam do exterior. Siga aquilo que lhe faz sentido e lhe traz felicidade. Fique atento e ouça o seu corpo. Procure investir naqueles cuidados que cuidam do seu bem estar a curto, médio e longo prazo.

Se a meditação é uma forma de cuidar de si, é. Mas pode implicar um grande esforço e trazer muita frustração porque está numa fase em que a sua mente está demasiado ativa.

Não é a única forma de tranquilizar a sua mente. Faça algo que goste e poderá até obter um resultado idêntico.

Sono

Dormir bem é imprescindível ao seu bem-estar. No entanto, pode nem saber como o fazer ou como melhorar a qualidade do seu sono. Abordaremos esse tema em breve por aqui.

Então, para além destas formas óbvias de cuidado, existem outras.

Mantenha uma rotina organizada

Para que não se perca no meio das afazeres do dia a dia, mantenha uma rotina organizada. Manter a casa, o local de trabalho e a rotina organizados ajuda a manter a mente organizada e saudável.

Inclua na sua rotina alguma coisa pequena que lhe permita fazer a mudança que pretende ver na sua vida, no seu comportamento, no seu pensamento ou emoções. Não sabe como? Procure ajuda.

Inclua na rotina metas semanais. Faça aquelas coisas que quer realmente fazer, além daquilo que tem para fazer no dia a dia. É tão fácil sentir que não tem tempo para tudo isso se não se organiza.

Como é que posso me organizar se sou mãe ou pai solteiro, com emprego dois trabalhos e crianças pequenas?

Mude a perspectiva, a forma como sente essa rotina ou as crenças que lhe tem associadas. Há sempre algo que pode fazer. Pense em passos pequenos, um de cada vez.

Inclua atividades que relaxam a mente

Reserve espaços para si nessa rotina, ao longo da semana. Espaços para lazer, para fazer aquilo que gosta de fazer e o faz sentir-se bem. Porque essa é responsabilidade sua e de mais ninguém.

Tem dificuldade em perceber aquilo que o relaxa sequer? Em perceber como pode fazer essas coisas? Procure ajuda.

Autoconhecimento

Quanto maior clareza tiver sobre quem você é, sobre aquilo que lhe faz sentido, sobre o seu propósito e as suas metas, maior confiança e determinação sentirá, assim como menor vulnerabilidade ao exterior.

A terapia pode ajudá-lo nesse sentido. Não é só quando há um diagnóstico ou uma crise.

Por falar em autoconhecimento, saiba quais são e onde estão os seus limites e comunique-os de forma clara. Fazê-lo pode ser um desafio, mas é também uma forma de autocuidado.

Geralmente, as pessoas dão-se conta de uma situação stressante quando estão num nível elevado de exaustão física e mental. Mas é possível prevenir estas situações e cuidar do seu bem estar quando conhece e respeita os seus limites.

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